Arquétipos · Textos

O Ano novo (?)

O ano novo traz a ideia do fim de um ciclo e o começo de um próximo. Muitas vezes a visualização desses ciclos é feita dentro de um recorte temporal linear, mas será que sempre tivemos esse pensamento lógico e linear em relação às mudanças de ano?

No mundo inteiro temos diversas tradições para a virada do ano. Jantares, festas, purificações, expiações de pecado, feitura de listas e promessas a serem cumpridas no ano vindouro. Há também músicas que rompem a noite e se prolongam pelas primeiras horas da manhã do novo dia, quase como se este fosse um prolongamento do último, numa espécie de tentativa de eternizar o momento, sem deixar de receber o próximo. Tradicionalmente, em grande parte do ocidente, essa virada de ano é feita na noite do dia 31 de dezembro para o dia 01 de janeiro. Porém o ano novo nem sempre foi da forma como conhecemos e celebramos; sequer na mesma data ou período natural.

De acordo com Eliade (1992) na maior parte das sociedades primitivas a passagem do ano era marcada pela suspenção dos tabus quanto às colheitas; elas poderiam de novo serem realizadas e o alimento era considerado novamente bom para ser consumido por todos. Ainda segundo o autor é de provável origem egípcia o acompanhamento do ciclo solar como marcação de tempo, por mais que durante um bom período esse acompanhamento tenha sido feito em função dos ciclos lunares.

Boa parte do nosso calendário é uma herança romana, adaptada e reformulada mediante influência de outros calendários de outros povos, muito provavelmente do Egito e da Eurásia, que tinham maior observância quanto aos eventos astronômicos. Deste calendário modificado romano herdamos em boa parte a duração e divisão dos meses, bem como os nomes. Antes da fixação por Júlio César (46 EC) na data de 1º de janeiro, a virada de um ano para o outro acompanhava a mudança da estação invernal para a primaveril. O que parece bastante óbvio, já que toda a vida era organizada em torno dos plantios e era muito mais fácil acompanhar, pelo menos no hemisfério norte, mudanças sensíveis das estações.

Foi o Calendário Juliano que determinou os 12 meses e os 365 dias, distribuídos alternadamente com meses de 31 e 30 dias, à exceção apenas de fevereiro, que contaria com 29 dias (sendo bissexto inicialmente a cada três anos e posteriormente modificando isso para um ciclo de quatro anos). Foi com o calendário gregoriano, posto pelo papa Gregório XIII por volta de 1582, que o nosso calendário de cunho solar adquiriu os seus moldes contemporâneos.

Mesmo a etimologia da palavra ano parece sugerir uma ideia de ciclo. Alguns autores apontam que do termo Ano (annus; annulus em latim) traria a ideia de círculo, anel, redondo e, por fim, algo eterno, sem início e sem um fim. Traz a ideia da medida de um ciclo completo, fechado em si, que traria sempre consigo a ideia de renovação,

O ano era um círculo fechado, tinha um começo e um fim, mas possuía também a particularidade de poder “renascer” sob a forma de um ano Novo. A cada Ano Novo, um Tempo “novo”, “puro” e “santo” – porque ainda não usado – vinha à existência. Mas o Tempo renascia, recomeçava, porque, a cada Novo Ano, o Mundo era criado novamente. (Eliade, 2010, p. 69)

 

Então fica bem claro que há uma espécie de recorte mítico dentro das celebrações de boas vidas ao ano novo e adeus ao ano que se segue. Mesmo dentro da compreensão linear de tempo humano é como se houvesse um processamento basal cíclico de compreensão do tempo. Mas, voltemos aos romanos.

Talvez a parte mais interessante eram as divindades celebradas durante essas viradas de tempo. Entre elas, para os

romanos, havia Ana Perena, considerada uma divindade de início de ciclos. Suas festas eram originalmente alocadas no mês de Marte, Março, dada a irrupção da primavera nesse mês no hemisfério norte, como previamente

mencionado. Nestas festas era permitido tudo à plebe; bebia-se e honrava-se a deusa, pedindo fartura e anos de vida iguais aos cálices de vinhos bebidos. As pessoas deitavam-se ao lado umas das outras em suas togas, ou em pequenos abrigos construídos de caniços, às margens do Tibre (LOPES, 2010).

Os meses de janeiro e fevereiro (“mês das expiações”) foram criados depois para o novo calendário e denotam a importância de uma das mais antigas e cultuadas divindades de todas, em se tratando de ano novo romano, era Janus, donde deriva o nome do primeiro mês do ano Janeiro. O nome do primeiro mês do ano significa algo como a porta do ano.

De acordo com Gheerbrant & Chevalier (2009) e Lopes (2010) Janus era um deus sui generis; possuía uma cabeça particionada com dois rostos, cada um olhando para uma direção diferente, um dos rostos era de um homem jovem e o outro de um homem velho. Esse deus era responsável por fazer não só a transição para os meses, mas entre os anos e entre momentos. Seus atributos eram a varinha do porteiro e as chaves, o que o transforma numa espécie de deus dos umbrais, dos limiares. Janus velava pelas entradas e pelas saídas, pelos nascimentos divinos e humanos e, de certa forma, pela evolução do passado para o futuro, ao menos enquanto testemunha desse transitar. Ao deus eram feitas grandes ofertas e sacrifícios durante as festas chamadas de Agonalias e chegavam a durar até o nono dia do mês.

É possível ver alguns paralelos com outra divindade dos limiares e caminhos: Hecate. Tradicionalmente apresentada como uma divindade helênica, suas influências iam muito além do mundo grego continental, tendo suas raízes nas terras misteriosas dos Balcãs e estendendo seus ramos e galhos até a Ibéria. Assim como Janus, Hécate possui como atributos a chave e os domínios sobre os umbrais e as transições da vida humana; onde há uma encruzilhada tripla, um umbral, uma passagem de um lugar para o outro, ali ela está. Tem-se que as estradas e os cemitérios são suas paragens principais, devido a sua potência ser associada à transição pelos reinos.

É muito provável que os antigos gregos comemorassem a passagem de ano também associando-o ao fim do inverno e início da primavera. É possível que uma das divindades que estivesse associada aos cultos e festejos de ano novo seja Krios (“O Carneiro”), um dos titãs filhos de Gaia e Urano que tramou junto com sua mãe e alguns irmãos a derrocada e castração de seu pai. Krios teria, junto com mais três irmãos, se colocado nos conhecidos pontos cardeais no mundo, inaugurando-os para falar a verdade, para segurar seu pai, enquanto Cronos o esperaria de tocaia no centro do mundo para castrá-lo. E por que provavelmente o associavam ao início do ano? Bom, porque uma das muitas versões existentes é que Krios[1] teria sua representação na constelação de áries e esta é a constelação que anunciava a chegada da primavera e o início do ano antigo.

É bastante clara a compreensão cíclica de mundo, onde um ciclo de morte, sono, adormecimento é despertado pelo próximo de vida, procriação e movimento.

Eliade (1992) menciona que durante a cerimônia babilônica do Akîtu, que durava cerca de 12 dias, eram feitas ritualizações do combate entre Tiamat e Marduk, combate esse que está na gênese do mundo, bem como eram recitados os versos do Enûma Elis (o poema da criação). Marduk foi a divindade que, a partir do corpo de Tiamat derrotada e dilacerada, criou as terras, os mares, o cosmo e o mundo em si. Dentro desse festival havia o Zagmuk, o “festival dos destinos”, no qual eram lidos presságios para os próximos doze meses do ano. Além dos presságios ocorriam os sacrifícios de bode expiatórios para purificação e, por fim, toda a festa terminava com um hierogamos entre Marduk e Sarpanit (ou Sarpanitu), representados na figura do rei e de uma escrava. Ritual esse provavelmente seguido de uma orgia coletiva.

Qualquer semelhança com a contemporaneidade não é mera coincidência!

A necessidade desses ritos e comportamentos terem nascido e ainda perdurarem, mesmo que transformados, denota a necessidade de uma renovação periódica; uma espécie de compreensão de tempo muito arraigado e aproximado da realidade cósmica em si. Há, psiquicamente, uma necessidade de renovação, para que os tempos continuem se seguindo, sem necessariamente terem um fim e mesmo quando há o prenúncio de fim, há a possibilidade de um recomeço. Essa necessidade de continuidade e comunhão com o cosmo é demarcada carnalmente na existência dos ritos que funcionam como uma maneira de reinserção do homem, com sua compreensão linear de tempo, no tempo cósmico sem começo e nem fim do divino. A sucessão e organização dos diversos ritos e cerimônias que marcam o fim de um ano e início de um próximo são bem claras: elas tratam de demarcar simbolicamente o fim, a expulsão do ano velho e o início do próximo ano, novo. Período esse que as cerimônias visam atrelar ao illo tempore, ao tempo divino, no qual ocorre a saída do caos para a fundação do cosmo e da vida como um todo. (ELIADE, 1992)

Na verdade, pouco importa como outras culturas passam e/ou contam o seu tempo; seja em semanas de cinco dias, em estações de chuvas ou secas, ou num ciclo solar de 12 meses. O que realmente é relevante para o processo psíquico é a noção de temporalidade e do próprio renovar do ciclo. Poderia me alongar e falar sobre como diversas outras culturas têm compreensões de morte e renascimento bastante similares quanto ao fim do ciclo de um ano, mas creio que isso não seja necessário. Nota-se que existia uma ideia de finitude atrelada a ideia de renascimento; não havia necessariamente um fim. Mesmo para aqueles povos que encaravam o fim dos deuses e da humanidade havia a ideia de um recomeço de algo cíclico, de um período de expiação e de renovação da vida via os festejos e a comunidade com o divino. O tempo não era visto como algo linear, mas como algo cíclico, fruto das ações divinas, sejam elas o adormecer e sonhar ou mesmo batalhas que rachariam o mundo completamente. Não seria em vão as associações do fim para o início do ano com as ideias de morte e renascimento e inverno e primavera. Mesmo porque as próprias vivências humanas com a natureza eram muito mais próximas; o funcionamento cíclico da natureza (e por consequência do divino) externa era incorporado, por analogia, ao movimento cíclico da natureza interna humana. Então todas as ações essas das quais o homem podia participar, ao menos honrando e lembrando das divindades, comungando com elas e fazendo parte desse ecossistema.

Não é preciso dizer que muitas dessas crenças sobreviveram graças às adaptações que sofreram ao serem incorporadas pelo movimento cristão que ascendeu no mundo. Uma boa parte do que se compreende e se comemora de festejos e feriados têm sua origem, ou ao menos bons pedaços, no que se considera chamar de paganismo hoje em dia. Isso diminui de alguma forma um festejo ou o outro? Em absoluto que não. Creio que há espaço para toda expressão religiosa, inclusive as mais tradicionais.

Interessante é que boa parte dos nossos comportamentos, crenças e modos de viver, tudo aquilo que acreditamos ser único, genuíno, novo e intimamente nosso na verdade têm outras origens, raízes mais profundas e funcionamentos mais arcaicos do que imaginamos, o que em Psicologia Analítica costumamos chamar de arquetípico. E, no caso do Brasil, uma boa parte dessa tradição é europeia (não preciso mencionar que fomos invadidos pelos europeus no idos de 1500, não é?). E mais interessante ainda é que sempre podemos, analogamente aos deuses e ao mundo, nos transformar para algo melhor, mais trabalhado e cônscio do nosso ser e espaço no mundo. Muito mais integrados ao nosso ecossistema do que antes havíamos estado. Sempre podemos, a cada ano novo, a cada dia, a cada mudança de paradigma, tentar retornar ao nosso ciclo sagrado, fazer um processo de re-ligare a nós mesmos.

Eu desejo a todos não uma repetição das mesmas atitudes, não uma espécie de prisão cármica de atitudes, pensamentos e desejos, mas um renascimento real; uma reinvenção de si mesmo para esse próximo ano que se inicia, muito mais autocentrado e cônscio também os espaços externos aos quais pertencemos.

_____*_____*_____*_____*_____*

[1] Para maiores informações, consultar Theoi.com

_____*_____*_____*_____*_____*

##Onde me achar nas redes sociais##

@indianarapsi –> Facebook e Instagram

Caso queira adquirir alguma das obras que utilizei para esse texto, os links estão logo após o título das mesmas. Ao adquirir o título pelo link você ajuda a autora desse blog! 

##Referências##

CHEVALIER, J. & GHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009.  –>  https://amzn.to/2rYNF3w

DOMINGUES, J. E. O dia de ano novo nem sempre foi 1º de Janeiro. Disponível em: << https://ensinarhistoriajoelza.com.br/ano-novo-1-janeiro/ >>. Acesso em: 25 de Dezembro de 2018;

 

ELIADE, M. O Mito do Eterno Retorno, São Paulo: Mercuryo, 1992;

 

________ O Sagrado e o Profano: essência das religiões, São Paulo: Martins Fontes, 2010; –> https://amzn.to/2BOdhEV

 

________ História das Crenças e das Ideias Religiosas: da Idade da Pedra aos Mistérios de Elêusis, vol. I. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. –> https://amzn.to/2LF1aOL

 

Krios” In: http://www.Theoi.com . Disponível em: << https://www.theoi.com/Titan/TitanKrios.html >>. Acessado em: 24 de Dezembro de 2018;

 

LOPES, E. C. Os Fastos: As Festas e Rituais Pagãos dedicados à Deusa Ana Perena. In: SOLETRAS, Ano X, Nº 19, jan./jun.2010. São Gonçalo: UERJ, 2010. Disponível em: << https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/soletras/article/view/7043 >>. Acesso em: 25 de Dezembro de 2018;

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s