Arquétipos · Contos de Fada · Feminino · Textos

As mulheres de chifre – Parte III (final)

E segue a terceira parte (finalmente!) da análise desse conto de fadas. Partimos do mesmo ponto onde deixamos e continuamos acompanhando a mulher rica em suas tarefas para se proteger das bruxas….

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Tecido feito em tear

Como uma terceira forma de se proteger, a mulher pega a manta que fora tecida por todas as bruxas e a prende dentro de um baú com cadeado, deixando, porém, um pedaço de fora. E esse aspecto é interessantíssimo! Costumeiramente se entende a roupa, ou o tecido que se cubra, como uma das imagens da persona. Jung define a persona como “uma máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma individualidade, quando, na realidade não passa de um papel, no qual fala a psique coletiva” (Jung, 2012, p. 47), ou seja, a persona é algo que é construído dado o contato com a sociedade, com o real. Muitas vezes é entendida também como papéis sociais. Assim sendo, podemos dizer que essa manta tecida por essas bruxas representantes desse feminino que fora obliterado e subjugado, esse novo papel para essa mulher deve ser usado com sabedoria, por isso ele deve estar sempre no limiar das coisas; metade para dentro e metade para fora. É possível que uma mulher seja dócil e feiticeira, e, na verdade, o mais saudável é que se transite entre suas diversas personas, sem deixar que elas se solidifiquem e grudem no rosto.

E, por fim, como quarta proteção, ela pega uma viga e cruza-a na porta. A imagem obtida dessa cena é a imagem de uma cruz que, não apenas para a cristandade, têm o significado de proteção contra o mal. Além disso possui quatro pontos que indicam as quatro direções do mundo. Têm íntima relação com os quatro pontos cardeais, como uma forma mais primitiva de localização, ou seja, ela representa uma forma de totalidade do mundo e quando tomamos a simbologia do número quatro, do quatérnio, não podemos nos furtar de pensar nas quatro funções psicológicas propostas por Jung, onde

todo o sistema de pensamento junguiano está fundado sobre a importância fundamental que ele reconhece no número quatro, a quaternidade representando para ele o fundamento arquetípico da psique humana, isto é, a totalidade dos processos psíquicos conscientes e inconscientes (Jacc, 139; Junt, 425 apud Chevalier & Gheerbrant, 2009, p. 762).

 

Assim é bastante interessante que a mulher precise desempenhar quatro tarefas para que possa se proteger, ou na melhor linguagem, integrar esses aspectos sombrios femininos que batem à sua porta no conto. É como se ela precisasse completar esse ciclo quadrático para que possa, nos modos de dizer da alquimia, coagular todo o processo que fora dissolvido previamente.

Quando as bruxas retornam, elas pedem a cada um dos elementos que abram a porta para elas. E todos eles, pelas formas como foram tratados (reintegrados à psique) no conto, negam a entrada delas. A água informa que fora espalhada até chegar no lago Lough, ou seja, a sua força purificadora agora está reintegrada ao lago e à terra de onde ela veio. A porta de madeira informa que não possui forças para mexer a viga, já que ela está firmemente posta enquanto o marco dessa jornada de proteção quádrupla que a mulher havia feito. E o bolo diz que foi espalhado e sua força vital jaz nos lábios das crianças; força esta reintegrada também os aspectos psíquicos e que foram capazes de revivificar os mesmos.

Uma das bruxas, no entanto, acaba perdendo seu manto na partida da casa. A mulher coleta esse manto que caíra da bruxa e o conserva pendurado dentro da casa, como uma lembrança daquela noite. E é esse manto que é passado de geração em geração na família. Da mesma forma que a primeira manta que fora tecida pelas bruxas, podemos compreender esse manto, essa capa, como também uma outra persona e também como um símbolo, como algo para lhe lembrar que existem sempre aspectos sombrios à espreita e que, se não tratados com a devida importância, podem retornar para nos assombrar.

Quando desviamos da padronagem que nós mesmos criamos para o tecido de nossas vidas, quando nos perdemos de nós mesmos, nossa vida fica mecânica, sonolenta, repetitiva; somos rapidamente lembrados de que é necessário voltar a andar na linha, no sentido de seguir o nosso próprio rumo. Rumo esse que é ditado pela alma. Esse manto que é deixado para trás por essa bruxa e levado adiante como uma herança importante é, na verdade um presente. Pois ele funciona como esse lembrete sempre presente: de sermos fiéis à nossa natureza mais íntima. Esse manto se torna uma lembrança tangível de uma noite na qual essa mulher provavelmente aprendeu alguma coisa importante sobre a tessitura da sua alma feminina.

Feminine Soul – Kimberly Leslie

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Referências Bibliográficas 

JACOBS, J. Celtic Fairy Tales, United Kingdom: Pook Press, ? — https://amzn.to/2PcBkBO

JUNG, C. G. Os arquétipos e o Inconsciente Coletivo, 8ª ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2012 — https://amzn.to/2Q7heyr

_________ O eu e o inconsciente: dois escritos sobre psicologia analítica, 8ª ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2012 —https://amzn.to/2Q7PzNU

KOLTUV, B. B. A Tecelã: ensaios sobre a psicologia feminina extraídos dos diários de uma analista junguiana. Cultrix: São Paulo, 1990

O’CATHAOIR, E. The Bold Fenian Women disponível em << https://www.irishtimes.com/culture/books/the-bold-fenian-women-1.3484413 >>, acessado em: 21 de Novembro de 2018.

SEIXAS, L. M. Encantando Arteterapeutas. In: CARNEIRO, C. MACIEL, C. Diálogos criativos entre arteterapia e psicologia junguiana. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2012, p. 77 – 102 — https://amzn.to/2E7OAGY

VON FRANZ, M. L. O Feminino nos contos de fadas, Vozes: Petrópolis, 3ª ed. 2010 — https://amzn.to/2SlVyLt

_____________ A sombra e o mal nos contos de fada. Paulus: São Paulo, 1985 — https://amzn.to/2KLSeH7

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