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A viagem de Sen e Chihiro – Reflexões sobre o desenvolvimento da psique (PARTE I)

Em 2001, os Estúdios Ghibli lançavam o longa metragem “A viagem de Chihiro” (Sen to Chihiro no Kamikakushi) e, desde aquele ano, o filme encanta e assombra quem o assiste por seu alto conteúdo e densidade simbólica. Mas o que será que a Psicologia Analítica pode contribuir e falar a respeito? Para compreendermos um pouco melhor o filme e suas imagens, a nível simbólico, é preciso que o façamos aos poucos, olhando com cuidado suas partes mais importantes. E é o que esse texto se propõe a fazer.

“A viagem de Chihiro” é uma história delicada, sutil e forte, e merece que olhemos com cuidado alguns de seus símbolos e imagens mais proeminentes. Pode ser considerada um conto de fadas moderno, pois trata com muita delicadeza de temas importantes para o psiquismo humano com a marca cultural nipônica forte. O nome original do filme, Sen to Chihiro no kamikakushi, pode ser traduzido aproximadamente como “O rapto de Sen e Chihiro”, rapto este que na própria construção da palavra nipônica é entendido como um rapto fantástico, como uma abdução feérica ou por deuses (Kami) que leva o sujeito de sua realidade rotineira e segura para uma outra diametralmente oposta à que vivia até então. A temática de raptos, roubos, abduções é corriqueira nos contos de fada e mitos por todo o mundo e, geralmente, aponta na direção de uma necessidade de transformação e numa espécie de defloramento. Este defloramento é muito mais ligado à perda de uma inocência e infantilidade para um alargamento e uma tomada de consciência mediante as necessidades psíquicas do que a perda de uma virgindade física per se. Clarissa Pinkola Estés (1994) comenta que a situação do roubo de algo é extremamente comum quando se avizinha a necessidade de crescimento psíquico e, consequentemente, o processo de individuação. A autora ainda afirma que o tema da captura fatal é recorrente em contos de fadas cujas protagonistas são mulheres. Então, é necessário que uma tarefa seja empreendida, que a inocência e a ignorância sejam perdidas e sacrificadas para que se tenha um alargamento da consciência e um retorno à normalidade. Assim, o título da obra já esclarece a natureza da situação: Chihiro é arrastada de um lugar a outro, um transporte forçado, um rapto e um cativeiro, que implicará em um processo de transformação para a menina.

O filme retrata a viagem de mudança que Chihiro, uma menina de 10 anos, está fazendo com seus pais para uma nova cidade e uma nova escola. Logo nessas primeiras cenas, temos a imagem construída dessa criança: uma criança um pouco mimada, egocêntrica e medrosa. Ao chegar na cidade, eles se perdem e resolvem pegar um atalho, por meio do qual eles adentram um túnel em um bosque. Esse túnel, por sua vez, acaba por levá-los a uma espécie de “parque de diversões” abandonado, com direito a uma estação de trem vazia. Após atravessar o túnel, eles se deparam com uma imensa campina verdejante e, além dela, encontram uma série de lojas, que parecem abandonadas, mas exalam cheiro de comida fresca e quente.

Os pais da menina então resolvem parar e comer a comida que encontram e, recusando comer, a menina sai para passear até encontrar uma ponte e ouvir o barulho do trem passando. Então, um menino que aparece na ponte lhe diz, de modo apressado, que ela saia dali antes que anoiteça. Chihiro então retorna para o ponto onde havia deixado os pais e encontra porcos no lugar dos mesmos. Desesperada, ela tenta ir embora do lugar pelo mesmo caminho que chegou, porém, encontra-se impedida por uma enorme massa de água que ocupa agora o lugar do que era a campina verdejante. Assim ela percebe que ficara presa naquele mundo com seus estranhos habitantes e transeuntes.

Ao ficar presa naquele mundo, Chihiro recebe a ajuda do estranho menino que se chama Haku. Ele, ao que aparenta e verbaliza, conhece-a há muito tempo e lembra-se dela, apesar de ela não se lembrar dele. Num primeiro momento, ele a alimenta, pois, se ela não comer nada daquele mundo, ela logo desaparecerá. É possível traçar um paralelo com a dissolução do ego no Inconsciente. Isso pode ocorrer mediante alguma experiência forte o suficiente que mobilize o sujeito caso ele não tenha a força necessária para sustentar um processo de imersão nos conteúdos do inconsciente, caso ele não tenha sido bem nutrido durante o seu processo de formação. O que é bastante análoga à situação na qual Chihiro se encontra assim que se percebe presa no mundo dos Kami (espíritos/deuses). Experiências de caráter transformador carregam consigo a ideia psíquica de dissolução, de desaparecimento e morte, como nos mitos sobre dilúvios, como as dissoluções e desmembramentos na alquimia e nos cultos dionisíacos antigos. O desaparecimento de Chihiro, aos poucos, lembra muito a operação alquímica da solutio: “ a solutio tem um duplo efeito: provoca o desaparecimento de uma forma e o surgimento de uma nova forma regenerada.” (Erdinger, 1990, p. 71). Mas é necessário que se passe por essa experiência inicial para que se possa prosseguir com o processo de transformação demandado pelo inconsciente. Assim, ainda amedrontada, a menina aceita o alimento que lhe é oferecido por Haku, que então a guia e orienta no que deve ser feito para que ela sobreviva e possa retornar para casa a salvo com seus pais. Ele também lhe diz que ela deve pedir emprego à bruxa que controla o lugar, Yubaaba, que também é a proprietária da casa de banhos para os espíritos que frequentam aquele lugar. Yubaaba controla seus funcionários roubando seus nomes e lhes chamando por outro.

À primeira vista, podemos traçar paralelos com uma figura importantíssima dentro da compreensão do psiquismo da Psicologia Analítica: o arquétipo da alteridade conhecido como anima/us. O psiquismo humano, por mais que estejamos no século XXI, encontra-se com as raízes bem fincadas em seu passado longínquo e, portanto, também opera segundo suas mais antigas formas de funcionamento. Assim, a concepção natural dos povos antigos situa a alma, que não se diferencia da ideia moderna do psiquismo, como portadora de uma expressão múltipla e não una como supomos ser. Podemos afirmar que o que os antigos chamavam de diversas Almas é o que chamamos e conhecemos hoje como arquétipos, que nada mais são do que categorias, formas de compreensão herdadas ao longo da espécie humana e que subjazem no Inconsciente Coletivo (JUNG, 2012; JUNG, 2006).

As figuras de Haku e Yubaaba podem ser compreendidas como imagens arquetípicas da própria Chihiro, experiências de alteridade e reconhecimento proporcionadas por tal arquétipo, pois ambos se colocam como pontos-chaves na sobrevivência e transformação da menina ao longo de toda a história. Vejamos como isso ocorre. Haku se coloca como servo de Yubaaba e, assim como todos os outros funcionários dela, teve o seu nome e parte do seu poder roubado por ela na esperança de aprender os poderes mágicos da bruxa. Ele não lembra do próprio nome, mas lembra do de Chihiro, o que aponta uma proximidade que nos possibilita afirmar que tão bem quanto a menina ele, Haku, a conhece e faz parte dela. E, mesmo quando ela tem o seu nome roubado, ele continua lembrando do nome verdadeiro dela e o mantém em segurança para que ela sempre tenha poder sobre si mesma.

Já Yubaaba se coloca como uma figura azeda, gananciosa, egoísta e fútil. Yubaaba detém o último andar da hospedaria como morada e faz dela seu reflexo opulento, amplo e vazio. O único momento afetivo e carinhoso de Yubaaba é com seu filho Bo. Quando Chihiro chega à sua porta pedindo emprego, ela cogita fazê-la sofrer, e a única coisa que impede que isso aconteça é a interferência de Bo no momento, fazendo com que Yubaaba dê a Chihiro um emprego e roube seu nome, transformando-a em Sen. É notável também que Yubaaba guarde similaridades com outra figura de contos de fada: a bruxa eslava Baba Yaga. No conto de fadas “Vasilisa, a sabida”[1] a menina também tem de realizar diversas tarefas propostas pela bruxa antes que ela possa retornar para sua casa em segurança. De maneira simbólica, é através da realização dessas tarefas que Vasilisa tem a oportunidade de trabalhar suas próprias questões. E assim o é com Chihiro também.

Desde o início, Yubaaba mostra o mesmo desdém que tem por seus outros funcionários para com Chihiro, quase como se fosse o próprio reflexo da menina que, no início, se mostra também bastante mimada, egoísta e grosseira com todos ao redor. Yubaaba insere-se como um reflexo do que Chihiro é de modo amplificado e projetado exteriormente e Haku coloca-se como um interlocutor entre essas duas figuras, como um psychopompo, e intermedia o contato entre ambas de forma que

Essas duas figuras crepusculares do fundo obscuro da psique, a anima e o animus (…) podem assumir numerosos aspectos. (…) habitam uma esfera de penumbra, e dificilmente percebemos que ambos, anime a animus, são complexos autônomos que constituem uma função psicológica do homem e da mulher. Entretanto, (…) podemos convertê-los em pontes que nos conduzem ao inconsciente. (Jung, 2012, p. 101).

 

A atitude de Yubaaba até esse ponto é como se fosse a atitude de um aspecto psíquico, ou um complexo autônomo, quando negligenciado. Ocorre um outro rapto do eu, dessa vez expresso aqui pelo roubo do nome de Chihiro – ela se transforma em Sen. Em japonês, o nome “Chihiro” tem o caractere “Sen” em seu início, que significa o número “Mil”, outro detalhe que denota a multiplicidade de figuras e características de que se trata a menina. Também há a identificação inicial da menina com as mesmas características da bruxa e elas lhes são apontadas pela própria Yubaaba, de modo a aterrorizá-la, assim, “(…) na medida em que a anima for inconsciente, ela sempre será projetada” (Jung, 2012, p. 87), então podemos dizer que a figura de Yubaaba acolhe essa projeção de Chihiro, rouba-lhe o nome e identidade, capturando novamente o ego e mergulhando na multiplicidade de aspectos inconscientes, ao mesmo tempo em que, como um sintoma por exemplo, permite que ela trabalhe na hospedaria afim de recuperar
tanto seu nome como os pais. Ou seja, ela lhe oferece a oportunidade de recuperar sua própria identidade, seu próprio ego. A projeção é um processo especular; reflete-se no exterior aquilo que não se reconhece em si mesmo. Assim como Chihiro, e tantas outras figuras no filme, a figura de Yubaaba é polissêmica.

Já Haku insere-se nesse ponto como uma outra parte desse arquétipo; ele ajuda, orienta e guia Chihiro, especialmente com palavras e com comandos mágicos verbais. Ao guardar o nome verdadeiro dela, ele também faz uma ponte importante com o ato de estar consciente de algo, como se ele mantivesse a segurança do complexo do ego durante o período do rapto do mesmo para o inconsciente. Com o transcorrer do filme, descobre-se que Haku é na verdade um Dragão, um deus menor de um rio que foi drenado há alguns anos. Tais características reunidas apontam-no como uma representação do animus de Chihiro. De acordo com Jung (2006) a figura do animus tem algumas formas de manifestação e de representação, a saber: voz, logos e fino trato com a consciência além de múltiplas representações, especialmente as animalescas. Ela ainda denota que guiar, mutar e acompanhar o desenvolvimento do sujeito é função do animus, enquanto intermediador da psique, e é exatamente o que Haku faz por Chihiro ao longo de todo o filme. Em alguns momentos ele chega a nutri-la, alimentando-a e dando-lhe forças para continuar no seu processo de transformação; Haku traz o verbo, o logos, e Yubaaba traz a imagem.

Mas não são apenas esses dois quem Chihiro encontra em sua viagem. Na hospedaria, ela conhece Lin e Kamaji, funcionária da limpeza e mantenedor da caldeira que esquenta a água dos banhos, respectivamente. Como os outros funcionários, ambos são contratados de Yubaaba, porém não há informação quanto ao roubo de seus nomes. Enquanto Lin opera nesse âmbito como se fosse a função materna de Chihiro, Kamaji opera como uma função paterna, acolhendo a menina quando ela o procura, chegando a dizer que ela é sua neta e desejando-lhe boa sorte. Em algumas cenas do filme, vemos como Chihiro retorna ao aposento de Kamaji sempre que sente necessidade de segurança. Chihiro é deslocada para ficar com Lin na equipe de limpeza e aos poucos a menina aprende como se portar e o que deve fazer ou não.

Trabalhar, em especial trabalhar com limpeza, coloca-se numa analogia direta com o trabalho psíquico e a retirada das camadas que encobrem o ego, camadas essas que podemos relacionar diretamente às projeções, “O processo de retirar as projeções adequadamente amplia a consciência e resulta num estado de separação individual.” (Jacoby, 2001 , p. 38), tanto o é que uma mudança na personalidade de Chihiro começa a operar quando ela engaja-se no processo de limpeza da “banheirona”. Além disso, a presença de Lin também indica a presença de um aspecto materno positivo que a ajuda a lidar com a situação. Após o bem sucedido atendimento de um cliente, ganha de presente um bolinho de ervas mágico. A tarefa de limpar também corresponde, simbolicamente, a livrar-se daquilo que era antigo e não serve mais. É uma tarefa de purificatio, é preciso limpar o terreno para que se receba algo novo em seu lugar;

no desenvolvimento feminino “todas as ações ligadas às ‘prendas domésticas’, cozinhar, lavar, varrer significam algo além do rotineiro. Todas essas imagens sugerem modos de se pensar na vida da alma, de avalia-la, alimentá-la, nutri-la, corrigi-la, purifica-la e organizá-la. (…) A natureza intuitiva dispõe da capacidade de estimar as situações num relance, de avaliar num átimo, de eliminar o entulho que cerca uma ideia e de identificar a essência, para lhe infundir vitalidade, cozinhar ideias cruas e preparar alimento para psique. (Estés,1994, p.127)

Da mesma forma que Baba Yaga age com Vasilisa, Yubaaba age em favor de proporcionar a Chihiro a oportunidade de reavaliação, de limpeza, organização e reconstrução de sua psique, de maneira que apenas a intuição, função essa tão feminina, pode agir. Outro aspecto interessante durante o trabalho de Chihiro com a limpeza é a entrada de uma personagem fundamental na trama (e no desenvolvimento psíquico), o “Sem-Face” (Kao-Nashi).

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[1] Para uma versão comentada deste conto recomendamos o livro da Clarissa Pinkola Éstes “mulheres que correm com os lobos”.

##Continua na Parte II##
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Referências Bibliográficas

ERDINGER, E. F. Anatomia da Psique: O simbolismo Alquímico na Psicoterapia. São Paulo: Cultrix, 5ª ed. 1990;

ESTÉS, C. P. Mulheres que Correm com os Lobos: Mitos e Histórias do Arquétipo da Mulher Selvagem, Rio de Janeiro: Rocco, 1994;
JACOBY, M. O Encontro Analítico: Transferência e Relacionamento Humano. São Paulo: Cultrix, 2001.

JUNG, C. G. O Eu e o Inconsciente: Dois escritos sobre a Psicologia Analítica. Petrópolis: Vozes, 2012;

JUNG, E. Animus e Anima. São Paulo: Cultrix, 2006.

 

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